Em Suma (Transcrição) - 37. O que a Trindade tem a ver com vida de igreja, segundo Miroslav Volf

Guilherme Cordeiro

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25 abr. de 2023

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Hoje no Brasil tem igreja para todo gosto. Não é preciso mais ficar com a velha igreja que seus pais te levavam, de geração em geração. Os mais espirituais podem procurar milagres e orações ungidas; quem é mais nerd pode preferir uma pregação robusta; os mais artistas, hinos e cânticos magníficos; os mais curiosos com história talvez prefiram uma liturgia complexa e profunda, enquanto os jovens solteiros podem procurar uma igreja com pretendentes promissores...

Seja como for, essa forma de ser igreja pode não ser muito diferente de como você escolhe o delivery de um restaurante. Mas muita gente pode ficar feliz quando a alternativa anterior era só comer o que sua família tradicionalmente cozinhava. Em termos mais claros, se antigamente no Brasil você praticamente só tinha opção de ser católico romano como seus pais, ou, quando muito, de uma igreja protestante histórica, hoje nem consigo listar o tanto de igreja que você pode escolher.

Como podemos sair desse embate entre a uniformidade de igrejas como o catolicismo romano (ou ortodoxia oriental) e o consumismo religioso de muitas igrejas evangélicas, que podem chegar a ser sectárias? A resposta é simples: pela Trindade. Ao menos é essa a resposta do nosso convidado de hoje, o teólogo croata e professor de Yale, Miroslav Volf. Você deve lembrar que já vimos nesse podcast como teólogos como Zizioulas e Ratzinger também usaram a Trindade para justificar a sua estrutura eclesiástica episcopal. Em contrapartida, Volf, seguindo os passos de seu mentor Jurgen Moltmann, defendeu uma concepção trinitária diferente e tentou encontrar uma alternativa congregacional às eclesiologias romanas e bizantinas. Em suas palavras, “estou pegando o grito de protesto das igrejas independentes — ‘nós somos a igreja’ – e o elevando ao status de um programa eclesiológico”.

A pauta desse programa perpassa no mínimo três áreas. Primeiro, uma nova proposta sobre os relacionamentos dentro da Trindade serem simétricos. Segundo, como, pela graça do Deus trino, a igreja imita, em certa medida, tais relacionamentos. Terceiro, como isso gera uma modelo participativo/policêntrico para a vida da igreja, que é justamente o que precisaríamos para combater a uniformidade, o sectarismo e o consumismo religioso.

Como você já deve saber pelos outros episódios do Em Suma, Miroslav Volf defende um modelo social da Trindade. Isso quer dizer que o que distingue as pessoas não são suas relações de origem e o que as unifica não é sua substância divina e simples. Não, o que as distingue são suas personalidades, serem centros autônomos de consciência pessoal, e o que as unifica é a sua pericorese, ou seja, a habitação mútua das pessoas divinas no interior uma das outras; é a interdependência íntima de seus relacionamentos, como numa dança de amor. Como explica Volf, “a estrutura das relações trinitárias não é caracterizada pela dominação piramidal do um (como em Ratzinger), nem pela bipolaridade hierárquica entre o um e muitos (como em Zizioulas), mas sim pela reciprocidade simétrica e policêntrica dos muitos.”

E isso já deixa claro o que a Trindade tem a ver com a vida da igreja. (E, sim, Volf vai tomar o cuidado de afirmar que é só uma analogia que só será perfeita na glória, e mesmo lá não será uma correspondência total entre Criador e criatura.) Isso permite evitar o extremo do autoritarismo das igrejas romanas e bizantinas enfatizar unidade sacerdotal coletiva do episcopado monárquico. Mas também permite evitar o extremo de individualismo de igrejas sectárias, sem qualquer vínculo com outras igrejas e prato cheio para consumismo religioso. A pericorese entre um e três dentro da Trindade gera igrejas locais autenticamente independentes e, simultaneamente, genuinamente católicas!


Deixe-me explicar melhor. Pro Volf, uma igreja é constituída quando dois ou três crentes se reúnem em nome de Cristo (Mt 18.20). Mesmo os sacramentos sendo importantes para definir igreja, até eles precisam de fé comprometida do indivíduo para sua eficácia, pois é a fé que nos incorpora tanto na comunhão da Trindade quanto na comunhão eclesial. Como Volf argumenta, “a reciprocidade simétrica das relações das pessoas trinitárias encontra sua correspondência na imagem da igreja em que todos os membros servem uns aos outros com os dons específicos do Espírito em imitação ao Senhor e por meio do poder do Pai. Como as pessoas divinas, elas todas estão em uma relação de mutuamente dar e receber”.

Tá bom, mas o que isso quer dizer na prática? Quer dizer que a igreja não se reduz ao clero e todo crente tem igual responsabilidade como membro de igreja local. No modelo episcopal, o poder flui de cima para baixo a partir de bispos e o que unifica a igreja seriam exatamente esses bispos, de modo que os leigos precisam meio que receber deles primeiro para depois contribur com a missão da igreja. Volf encontra uma figura diferente no Novo Testamento. O que unifica a igreja é ela ser carismática,. Calma, ele não tá falando de deixar o menino rodar. E sim o significado original de carisma: os dons do Espírito. Ou seja, como Paulo argumenta em 1Coríntios 12, é uma igreja que depende dos carismas do Espírito. É assim que o Cristo exaltado se faz presente dentre os que confessam seu nome. Todo membro recebe um dom e por isso somos membros uns dos outros. Ou seja, há relações recíprocas e simétricas entre os dons, assim como na Trindade. Todos os membros da igreja são igreja!

Então, quaisquer ofícios que houverem dentro da igreja não serão dignidades inerentes para formar um clero que fará todo o real trabalho espiritual, mas sim a recepção pública de um dom dado por Deus e ordenado para igreja como um todo. A ordenação é um ato da igreja toda guiada pelo Espírito de Deus, daí devendo ser precedida por eleição. E, claro, como toda estrutura eclesiástica normativa, é provisória e vinculada a esta era que vai passar (e pode passar ainda mais rápido a depender do sopro do Espírito).

Por outro lado, isso não leva a tendências sectárias porque as igrejas locais se relacionarão entre si, assim como as pessoas da Trindade habitam uma na outra. Uma igreja local será católica em suas relações com outros corpos eclesiásticos não porque está atrelada a um patriarca ou a um bispo em Roma, mas porque está “aberta ao diferente”, porque sabe estar unida com quem quer que confesse o nome de Cristo e que precisa de seus dons.

Por fim, adotar essa visão para a igreja também acabaria com o consumismo religioso. Enfim haveria um povo refletindo “a descida do Deus trino em paixão autoesvaziadora a fim de levar seres humanos para o ciclo perfeito de trocas em que se entregam uns aos outros e se recebem sempre em amor”. Com esse ciclo de amor e de responsabilidade mútua, a igreja não é um restaurante a se escolher, ou uma comida caseira a se engolir. É onde comemos juntos o pão da vida, distribuído igualmente a todos os irmãos.

Exclusão e abraço

Miroslav Volf

Exclusão e abraço

R$52,90

Original: Roteirizado e narrado por Guilherme Cordeiro.

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O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direitos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


Guilherme Cordeiro

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Editor-chefe e diretor de conteúdo da Pilgrim. Casado, pela graça de Deus. Aficcionado por leitura e por trazer mais livros cristãos de qualidade para o Brasil.


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Em Suma (Transcrição) - 26. Não use Mateus 18 para disciplina eclesiástica sem antes ouvir isto Episódio de hoje: Não use Mateus 18 para disciplina eclesiástica sem antes ouvir isto. Hillsong e Brian Houston. Mars Hill e Mark Driscoll. C.J. Mahaney e Sovereign Grace Ministries. Ravi Zacharias e seu ministério. Casos de pedofilia no clero da Igreja Católica. E poderia só aumentar essa lista com outros teólogos acusados de encobrir ou perpetuar casos de abuso sexual e de poder em suas igrejas. Muitas vezes, Mateus 18, aquele famoso texto com três etapas para disciplina eclesiástica, é utilizado para descredibilizar o relato das vítimas que tentam denunciar a liderança da igreja por outros meios. Por outro lado, há uma preocupação comum de que levar relatos às redes sociais e à mídia secular talvez não seja a melhor maneira gerar a solução mais pacífica e justa nesses casos. Hoje, vamos tentar entender o que Mateus 18 realmente ensina, justamente ao entender os versículos v. 15-20 dentro dos outros versículos neste capítulo. Por isso, sugiro que você dê um pause e leia o capítulo todo antes de continuarmos. Pronto? Vamos lá. Anote esses cinco lembretes antes de fazer disciplina eclesiástica com base em Mateus 18. Em primeiro lugar, a disciplina na igreja é feita por e para pequeninos. (Mateus 18.1-5). A primeira coisa que Jesus fala é que o seu padrão de grandeza será as crianças. Não são os reis da terra e os seus filhos privilegiados, mencionados em Mt 17.24-27. É aquela pobre criança de Cafarnaum que ninguém notava. É com ela que Jesus se identifica. Ou seja, a disciplina eclesiástica deve ser feita não para perpetuar politicagens do mundo com seus acobertamentos, mas sim inverter seus padrões, começando por baixo, pela humilhação de quem não é levado em conta e da tentativa de recebê-los como se recebe o próprio Cristo. Em segundo lugar, a disciplina na igreja é feita para evitar pedras de tropeço (Mateus 18.6-9). Como Hauerwas diz, “a excomunhão é um ato de amor porque não é expulsar alguém da igreja, mas uma tentativa de fazê-los perceber que se tornaram pedra de tropeço e, portanto, já estão fora da igreja”. Por outro lado, caso os dominadores que tentam se valer de disciplina eclesiástica como pretexto não tenham notado as indiretas no lembrete anterior, esta parte não deixa dúvida. Ferir a fé de pequeninos crentes deveria dar arrepios por conta das consequências (e todo mundo conhece um desviado por uma disciplina mal aplicada). Como Dale Allison diz, a salvação é concebida como um processo social aqui. Por fim, antes de você se sentir justificado em sua ira anticlerical, a maior pedra de tropeço na sua vida não é uma liderança ou um irmão tolo, mas você mesmo. Arranque o que for necessário para continuar. Em terceiro lugar, a disciplina na igreja é feita para imitar o amor perseverante de Deus. Ou seja, é para ganhar o irmão de volta. Devemos levar esses pequeninos que estão desgarrados tão sério quanto o próprio Deus, reservando a elite angelical mais próxima a ele para tais pequeninos e indo buscar os desgarrados para que nenhum se perca. Como Orígenes falou há tanto tempo, “você vê as ovelhas do Senhor prestes a cair de um precipício e não vai correr até elas? [...] Não queremos seguir o exemplo do mestre pastor?” Aqui está o objetivo da disciplina. Então, mesmo que a pessoa seja retirada da comunidade no final do processo, a expectativa é que ela repense, arrependa-se e retorne. Afinal, ninguém gosta de ser “gentio e publicano” (termos que indicam essa expectativa de retorno). Em quarto lugar, a disciplina na igreja é uma ocasião de sabedoria (Mateus 18.15-20). Não estamos com um código de processo civil ou eclesiástico aqui; este é um dos cinco discursos, em uma possível referência ao Pentateuco, que estruturam o Evangelho de Mateus. Este discurso especificamente busca tratar de relacionamentos mútuos na igreja. Aliás, como nos outros discursos, Jesus faz farto uso da Lei e dos Profetas, e neste caso ele segue o mesmo requisito de duas ou três testemunhas de Dt 19.15 e a necessidade de resolver conflitos comunitários pessoalmente de Lv 19.17. E ele nos mostra como os mandamentos não deveriam ser lidos de forma literalista ou protocolar, mas com uma ocasião de sabedoria, de imaginar aquela situação narrativa da lei como guia para aplicá-la em novos contextos. Afinal, ele está pegando uma situação de Israel no deserto e aplicando a seus discípulos em sua nova comunidade! O que isso quer dizer na prática? Os passos de Mateus 18 não são uma panaceia ou um protocolo para resolver todo tipo de pecado. É para quando um irmão peca no privado contra o outro no contexto da igreja local e a reconciliação não é mais possível. Não está falando de quando um cristão discorda de outro na esfera pública (até porque o próprio Jesus não falava antes no privado com todos seus oponentes teológicos). Não está falando de pecados públicos e notórios (afinal, Paulo não segue esses passos em 1Co 5). Não está falando de caso de erro por parte de líderes (afinal, 1Tm 5 coloca um procedimento diferente). Está falando para inspirar discípulos em busca de sabedoria a resolverem seus conflitos. Em quinto e último lugar, a disciplina na igreja serve para facilitar o perdão e chegar à reconciliação (Mateus 18.21-35). A primeira reação dos discípulos é ver que o que Jesus acabou de falar os exigiria perdoar. E Jesus diz que de fato eles deviam tomar como parâmetro o perdão abundante de Deus. Não é à toa que Jesus começou com a imitação da perseverança do pastor pela ovelha perdida, disse que se faria presente na ação dos discípulos por meio da oração e logo depois fala de incorporar o perdão de Deus. Disciplina eclesiástica deveria ser uma participação no amor divino. Nas palavras de Kangil Kim, o perdão aqui é concebido como o cerne de um ritual corpóreo e comunitário, que passa por arrependimento e oração, para a assembleia participar na natureza perdoadora de Deus. E no final é bom lembrar que é quem não pratica o perdão que não será perdoado por Deus. Mas, para terminar, como reconciliamos essa tensão entre perdão e expulsão da igreja? Parafraseando o comentador Ulrich Luz, Jesus nos chama a orarmos, mesmo sendo apenas dois ou três, e confiar que ele agirá conosco. Às vezes realmente não sabemos como decidir e tudo que podemos fazer é entregar a bagunça de nossos conflitos nas mãos dele, o Supremo Pastor. Referências bibliográficas Ulrich Luz, Matthew: a commentary, ed. Helmut Koester, Hermeneia—a Critical and Historical Commentary on the Bible (Minneapolis, MN: Augsburg, 2001) Citações de pais da igreja vindas de D.H. Williams. Matthew. Eerdmans, 2018. R.T. France. The Gospel of Matthew (The New International Commentary on the New Testament) Stanley Hauerwas. Matthew, Brazos Press, 2007. W.D. Davies e Dale C. Allison Jr. Matthew 8-18: Volume 2 (International Critical Commentary) Kangil Kim. “A Theology of Forgiveness: Theosis in Matthew 18:15–35”. Journal of theological interpretation. Eunyung Lim. “Entering the Kingdom of Heaven Not like the Sons of Earthly Kings (Matthew 17: 24–18:5)”. The Catholic Biblical Quarterly. Para uma abordagem de sabedoria no Evangelho de Mateus, ver as obras de Jonathan Pennington
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Teologia
Em Suma (Transcrição) - 20. O que a Trindade tem a ver com relacionamentos, segundo John Zizioulas Episódio de hoje: O que a Trindade tem a ver com relacionamentos, segundo John Zizioulas “Quem é você?” Como você responderia essa pergunta? Não teria como fugir de relacionamentos. Se você me contasse o seu nome e sobrenome, já estaria revelando todos os seus relacionamentos familiares. Se me contasse seu trabalho, estaria indicando como você serve a outras pessoas em relacionamentos profissionais. Se me contasse de onde você veio, também me falaria de um relacionamento com uma cidade, vila ou ao menos um lugar nomeado pelo ser humano. Relacionamentos são inescapáveis. E talvez não tenha cultura mais obcecada com relacionamentos e como eles definem a nossa identidade pessoal como a nossa. Basta dar um Google sobre “como descobrir sua identidade” ou mesmo “política de identidades” para ver do que estou falando. E vamos apontar hoje que isso tudo tem uma origem cristã. Como o teólogo ortodoxo grego e bispo de Pérgamo John Zizioulas aponta, essa ideia de relacionamentos pessoais como cruciais para a identidade humana tem uma origem histórica no cristianismo Na verdade, ele só pode sobreviver existencialmente dentro da fé cristã. Por isso, hoje vamos ver como relacionamentos são essenciais para definir Deus, pessoas humanas e, na verdade, até o que é a igreja e sobre como igrejas devem se relacionar entre si. Como sempre, comecemos por Deus. Diferentemente dos filósofos gregos que colocavam divindades e quaisquer outros seres pessoais como um desenvolvimento posterior de um ser impessoal, segundo Zizioulas, os pais da igreja, especialmente os orientais, longe de helenizarem a Bíblia Hebraica, perceberam que a Trindade é o que revela Deus como livre e pessoal. A natureza divina coincide com o Pai, o qual gera o Filho e sopra o Espírito. O ser supremo é relacionamentos de comunhão. Ou seja, o próprio ser de Deus coincide com um ato livre de comunhão, em que o Pai livremente quer estar com o Outro, com as pessoas únicas e concretas do Filho e do Espírito, os quais são únicas e concretas justamente por seu relacionamento singular com o Pai. Daí os pais da igreja a chamarem de “hipóstases”, exatamente para marcar sua singularidade. Ou seja, pessoas são ekstáticas, são um movimento orientado para fora de si para livremente afirmar o outro. Para usar termos mais simples, pessoas são orientadas para amar o outro em comunhão, ter uma liberdade para o outro, como Deus sempre fez na Trindade. E Deus oferece amorosamente à humanidade uma participação dessa comunhão pessoal. Nas palavras de Zizioulas, “Sou amado, logo existo”. Só que seres humanos são finitos e, por isso, não podem ser, por si só, plenamente livres como Deus é. Em nosso mundo marcado pelo pecado e pela morte, somos, por um lado, o que Zizioulas chama de “hipóstase da existência biológica”. Todos nascemos de uma comunhão sexual entre duas pessoas, a qual, em seus melhores momentos, carrega um amor que aponta para o nosso destino como criaturas de encontrar comunhão ao encontrarmos o outro. Ou seja, os componentes básicos dessa hipóstase são o amor eros e o corpo. Mas temos “paixões” que dificultam o destino apontado para ambos, várias necessidades naturais que tiram a plena liberdade e a nossa própria separação individualista das outras pessoas. Nas palavras de Zizioulas, “o corpo tende para a pessoa, mas finalmente leva ao indivíduo”. E, para ele, o indivíduo só pode acabar em morte, na qual finalmente ficará isolado de tudo e todos. E a única maneira de sair desse ciclo de morte biológica é que essa hipóstase nasça de novo, mantendo seu corpo e amor, mas de forma reconstituída. Nas palavras de Zizioulas, “Graças a Cristo, o homem [...] pode afirmar sua existência como pessoal não com base nas leis imutáveis da sua natureza, mas na base de um relacionamento com Deus que se identifica com o que Cristo em liberdade e amor possui como Filho de Deus junto ao Pai”. Daí nasce, por meio do batismo que nos une ao Filho encarnado, uma nova hipóstase, o que ele chama de “hipóstase eclesial”. A igreja é justamente onde renascemos com relacionamentos que não são definidos pela biologia e pelo individualismo exclusivista, onde se reconciliza natureza e pessoa. Basta olhar para a eucaristia, onde todo o cosmos volta para o devido lugar em comunhão com Deus, onde nossos “irmãos” não se restringem a laços familiares, onde os “frutos da terra” são transfigurados no próprio Cristo como pão e vinho, onde a igreja se torna corpo de Cristo e Cristo, cabeça da igreja. E, quando todas essas promessas escatológicas de comunhão com Deus, com o próximo e com a criação na eucaristia finalmente se cumprirem nos novos céus e na nova terra, participaremos juntos do próprio Deus (a querida theosis dos gregos). Viu como a Trindade tem tudo a ver com relacionamentos? Só que eu queria sair um pouco do óbvio, e refletir nesse finalzinho sobre como a Trindade muda os relacionamentos entre igrejas. Ou seja, qual é a visão ecumênica de Zizioulas? Bem, Zizioulas segue o que hoje é um consenso ecumênico de que a igreja representa uma comunhão (koinonia) de pessoas misticamente unida com Deus em Cristo pelo Espiriito Santo. Como vimos acima, ele afirma que essa comunhão existe em sua plenitude onde quer que a Eucaristia seja celebrada. Isso quer dizer que a igreja católica em sua universalidade se manifesta primariamente não em uma grande estrutura burocrática, mas em igrejas locais enquanto igrejas locais, pois é lá que toda a igreja em determinado lugar se reúne com o Cristo todo na eucaristia. Daí, igrejas locais deveriam coexistir não em divisões confessionais formando denominações como temos hoje, mas em estruturas conciliares que facilitem a formação de uma rede de igrejas locais, como foi nos primeiros séculos Porém, preciso aqui voltar para um ponto sobre a Trindade em Zizioulas que impacta sua visão ecumênica. Para ele, existe um relacionamento assimétrico entre as pessoas da Trindade e, por consequência entre o “um” e o “muitos”. Por causa da primazia do Pai, seria a sua pessoa que causaria as outras, embora ele também não possa existir sem eles. Na reflexão da Trindade na igreja, portanto, seria imprescindível que houvesse uma figura episcopal liderando a celebração eucarística — ainda que ela própria esteja atrelada ao resto da congregação — e, por isso, o mais longe que Zizioulas consegue chegar é a uma igreja católica composta em sua unidade por uma comunhão de bispos com suas respectivas dioceses em paridade de jurisdição. E isso pode fazer alguns protestantes ficarem de fora, a meu ver... Seja como for, temos muito a agradecer a Zizioulas por mostrar que a Trindade não só tem a ver com relacionamentos, mas, em suas palavras, como “o homem é livre somente em comunhão”. BIBLIOGRAFIA John Zizioulas. Being in Communion. Roland Millare. “Towards a Common Communion: The Relational Anthropologies of John Zizioulas and Karol Wojtyla” New Blackfriars Kevin J. Sherman “The Doctrine of the Trinity in the Personalist Theology of John Zizioulas” International Journal of Orthodox Theology 13:1, 2022. Lazić, T. (2021). Church as Koinonia: Exploring the Ecumenical Potential of John Zizioulas’s Communio Ecclesiology. In: Latinovic, V., Wooden, A.K. (eds) Stolen Churches or Bridges to Orthodoxy? . Pathways for Ecumenical and Interreligious Dialogue. Palgrave Macmillan, Cham. https://doi.org/10.1007/978-3-030-55442-2_17
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Igreja
Em Suma (Transcrição) - 21. A comunhão dos santos para enlutados Uma das melhores igrejas que já visitei era bonita por causa do seu cemitério. A igreja de Saint Martin, perto do centro da cidade inglesa da Cantuária, é a igreja mais antiga do mundo de fala inglesa. Construída antes de 597 d.C., sua simples estrutura de pedra não te chamaria a atenção se você não soubesse o que está procurando. O que te chamaria a atenção é que a maior parte do terreno por ela ocupado na verdade é um cemitério. Pode ser estranho chegar à noite para um culto rodeado de túmulos. Quem sabe o que vai aparecer ali no seu caminho para o culto? Mas hoje vamos ver por que você não precisará mais se preocupar com fantasmas no caminho no culto. A razão é simples. Todo cristão morto já está no culto junto com você! Calma, isso não coisa de espírita, faz parte de uma crença central para a ortodoxia cristã: a comunhão dos santos. “Creio no Espírito Santo, na santa igreja católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição do corpo e na vida eterna. Amém”. Assim acaba o Credo Apostólico. Depois de um rápido panorama histórico de como esta cláusula surgiu e foi adicionada ao Credo, vamos explorar como ela indica uma forma distintamente cristã de encarar o luto. Para quem não sabe, o Credo Apostólico é um resumo da fé cristã, consensual entre todas as denominações cristãs, que se solidificou como ferramenta catequética básica no Ocidente no começo da Idade Média. Ele veio do Antigo Credo Romano, que era a resposta certa de um questionário litúrgico feito aos catecúmenos antes de serem batizados. O primeiro exemplar conhecido desse Antigo Credo, por sua vez, está em grego numa epístola de Marcelo de Ancira em 341, mas há diversos outros exemplos no século 4º. A visão tradicional de sua formação, então, é que ele veio do Oriente no quarto século, combinava duas fórmulas tradicionais (uma que cobre os artigos do nascimento de Cristo até a Parousia e a outra uma lista básica de verdades cristãs, que cobre o resto dos artigos) e foi incorporado na liturgia da igreja de Roma antes de sua língua ser o latim. Daí, ele foi se desenvolvendo como padrão de ortodoxia na igreja ocidental desde então, até se consolidar como o Credo Apostólico no século 8 e ser usado por toda a cristandade latina a partir do reino de Carlos Magno. Ao longo das modificações feitas ao Antigo Símbolo Romano nas diversas congregações do Ocidente do Império Romano para servir a diversos propósitos litúrgicos, adicionou-se “comunhão dos santos” ao lado de “santa igreja católica”. O primeiro exemplo de um credo com essa adição provavelmente está em Nicetas de Remesiana, embora alguns prefiram falar apenas de uma origem galicana anônima no século IV. Só que aqui está a controvérsia fatal: o que isso significa? A interpretação tradicional é que teria um sentido subjetivo: comunhão com os santos quer dizer, no mínimo, comunhão com as pessoas consideradas santas como os mártires e, no máximo, com todos os cristãos, vivos ou mortos. Outra interpretação possível, destacando a origem oriental da frase, teria a conotação mais objetiva, de participar dos elementos santos, ou seja, da Eucaristia. E uma terceira interpretação seria que o termo nada mais seria que uma explicação adicional do que é a “santa igreja católica”. De qualquer forma, aqui vem a surpresa típica do Em Suma: não vou dizer qual dessas três é a correta ou se aproxima mais da intenção original de quem a adicionou ao Credo. Pelo contrário, vamos ver como, especialmente na hora da Eucaristia, a igreja celebra sua comunhão com Deus e com todos os cristãos, vivos ou mortos — e isso é especialmente forte para quando alguém que você ama não está mais por perto. Eu senti isso pela primeira vez quando senti uma pontada de luto guardada em um domingo especialmente emotivo. Pensava em como seria ver certas pessoas na glória. Nem consigo imaginar ver a face do próprio Deus. Isso seria fantástico. Tem até nome visão beatífica. E tem o bônus de ver os patriarcas, Moisés, Davi, os profetas, apóstolo Paulo, os heróis da teologia sobre quem fiz episódios no Em Suma... Que legal né! Mas aí pensei também no meu vô, que só conheci enquanto bebê, minha tia-avó, um exemplo de crente que havia falecido recentemente, no meu sogro, que falecera poucos meses depois de me casar, e em todos os outros lutos que eu provavelmente acumularia ao longo da vida. Segurando as lágrimas, começou a celebração da Ceia do Senhor, que tem um quê de rito fúnebre ao lembrarmos a morte de Cristo, mas foi quando parei para pensar que, como todo cristão faz parte do corpo de Cristo, os cristãos mortos ainda estão participando desta refeição, como o próprio Cristo está. Jesus disse que muitos viriam do oriente e do ocidente para se sentar para uma refeição com Abraõa, Isaque e Jacó no reino dos céus. Ele mesmo disse para os discípulos partilharem do pão da Ceia, porque Jesus não tomaria do fruto da videira de novo até que viesse o Reino. Como o autor de Hebreus diz no cap. 12, estamos agora num Monte Sião em que a “assembleia dos primogênitos arrolados nos céus” e os “espíritos dos justos aperfeiçoados” também estão participando de todo culto cristão. Como Inácio de Antioquia disse, a eucaristia é o “remédio para a imortalidade”. Isso tudo quer dizer que, na Mesa do Senhor, eu estava comendo e bebendo junto com Cristo, os patriarcas, Moisés, Davi, os profetas, o apóstolo Paulo, os heróis de teologia, meu vô, minha tia-avó e meu sogro. E até com a galera enterrada na igreja de Saint Martin lá na Cantuária. Mas isso não é tudo. Como toda refeição, não estamos sozinhos ao nos lembrar de quem partiu. A comunhão dos santos corta dos dois lados. E, como ainda estou desse, deixo vocês com a oração de um santo que partiu — uma oração para enlutados. Agostinho, com saudades de seu amigo Nebrídio, com quem tinha tantas conversas sobre a fé, orou assim: “Ele já não aproxima o seu ouvido da minha boca, mas aproxima a sua boca espiritual da tua Fonte e bebe, até não mais poder, a Sabedoria, tanto quanto queira, feliz para sempre. Não creio que se inebrie de tal sorte com ela que se esqueça de mim, pois é certo que tu, Senhor, de quem ele bebe, também se lembra de mim”. PARA SE APROFUNDAR Bryan Stone and Liuwe H. Westra, "Apostles' Creed" In: Encyclopedia of the Bible and Its Reception, online edited by Constance M. Furey, Joel Marcus LeMon, Brian Matz, Thomas Chr. Römer, Jens Schröter, Barry Dov Walfish and Eric Ziolkowski (Berlin, Boston: De Gruyter, 2010), https://doi-org.lib-proxy.calvin.edu/10.1515/EBR.apostlescreed F. L. Cross and Elizabeth A. Livingstone, orgs., The Oxford dictionary of the Christian Church (Oxford; New York: Oxford University Press, 2005), 90. Liuwe H. Westra, The Apostles' Creed: origin, history, and some early commentaries. (Brepols: 2002), 251-3. J.N.D. Kelly. Early Christian Creeds, 3rd Edition (New York: David McKay Company Inc., 1982), 390. Agostinho. Confissões. Inácio de Antioqua. Carta aos Efésios.
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